terça-feira, setembro 27, 2011

O TIGRE NÃO PRECISA DIZER QUE É TIGRE, MAS...

O TIGRE NÃO PRECISA DIZER QUE É TIGRE, MAS...

Um pouco de História não oficial

Movimento Negro Unificado
27 anos de luta
MILTON BARBOSA
2005

Milton Barbosa
Miltão do MNU

Postagem e formatação: Aparecido Donizetti Hernandez, com autorização do autor.



Em 18 de junho de 1978 representantes de vários grupos se reuniram em resposta à discriminação racial sofrida por quatro garotos do time infantil de voleibol do Clube de Regatas Tietê e a prisão, tortura e morte de Robison Silveira da Luz, trabalhador, pai de família, acusado de roubar frutas numa feira, sendo torturado no 44º Distrito Policial de Guaianases, vindo a falecer em consequência às torturas.

Representantes de atletas e artistas negros, entidades do movimento negro (Centro de Cultura e Arte Negra – CECAN), Grupo Afro-Latino América, Associação Cultural Brasil Jovem, Instituto Brasileiro de Estudos Africanistas – IBEA e Câmara de Comércio Afro-Brasileiro, representada pelo filho do deputado Adalberto Camargo, decidiram pela criação de um Movimento Unificado Contra a Discriminação Racial.

O lançamento público aconteceu numa manifestação no dia 7 de julho, do mesmo ano, nas escadarias do Teatro Municipal da cidade de São Paulo, reunindo duas mil pessoas, segundo o jornal Folha de São Paulo, em plena ditadura militar.

Com a criação do Movimento e seu lançamento público, mudamos a forma de enfrentar o racismo e a discriminação racial no país.

Já no dia 7 de julho, participaram entidades do Estado do Rio de Janeiro: Instituto de Pesquisa das Culturas Negras – IPCN, Centro de Estudos Brasil África – CEBA, Escola de Samba Quilombos, Renascença Clube, Núcleo Negro Socialista, Olorum Baba Min, Sociedade de Intercâmbio Brasil África – SINBA.

Cinco entidades da Bahia nos enviaram moções de apoio à manifestação.

Prisioneiros da Casa de Detenção do Carandiru enviaram um documento se integrando ao movimento, denunciando as condições desumanas em que viviam os presos e o racismo do sistema judiciário e do sistema prisional – Centro de Luta Netos de Zumbi.

Participaram do Ato, também, Lélia Gonzales e o professor Abdias do Nascimento.




Para enfrentar o racismo e a discriminação racial, este movimento que se transformou no Movimento Negro Unificado, mudou a forma de a população negra lutar, saindo das salas de debates e conferência, atividades lúdicas e esportivas, para ações de confronto aos atos de racismo e discriminação racial, elaborando panfletos e jornais, realizando atos públicos e criando núcleos organizados em associações recreativas, de moradores, categorias de trabalhadores, nas universidades públicas e privadas.

O movimento tirou proveito das divergências conjunturais, mesmo dos setores da burguesia, como por exemplo: jornais burgueses como "A Folha de São Paulo" e "O Estado de São Paulo". Articulamos, também, com mídia internacional, favoráveis ao fim da ditadura militar e outros setores.

Definimos como princípio a aliança com os setores de esquerda no país que lutavam pelo socialismo e comunismo, pois foi o capitalismo que nos colocou nesta condição, nos sequestrando na África, nos vendendo para acumular mais valia, nos escravizando para construir riqueza para os colonizadores, nos explorando, após a escravidão, como trabalhadores menos qualificados e de menor remuneração.

O negro é um pioneiro em civilização, sendo nos países onde viveu ou vive um criador de cidades, núcleos comerciais, artísticos, sendo que no Brasil realizava desde os trabalhos da lavoura, até os mais sofisticados, como cuidar da mecânica do engenho de açúcar e da saúde do senhor de escravo pelo seu conhecimento milenar de ervas medicinais.

Foram os negros escolhidos para serem escravizados pela diferença física ao europeu e por seus profundos conhecimentos de agricultura e metalurgia (ferro, cobre, prata, ouro, diamantes).

Em termos culturais os negros foram pioneiros, pois no período anterior à abolição da escravatura no Brasil, os negros eram as principais figuras na arte nobre (pintura, escultura, literatura, música, teatro).

Na luta política o negro tem sido pioneiro na figura do Movimento Negro Unificado.

No início da década de 80 transformamos a ação do Movimento Feminista, introduzindo com Lélia Gonzales, Vera Mara e outras, a questão da mulher negra, que sempre foi trabalhadora neste país.

José do Patrocínio


Também no início da década de oitenta, o MNU – SP em aliança com o Jornal Lampião e o Grupo SOMOS, realizamos ato público e passeata conjunta contra as ações do delegado Wilson Richetti, que prendia negros, homossexuais e prostitutas, de forma humilhante e desrespeitosa na região chamada Boca do Lixo de São Paulo – Zona de Meretrício. Denunciamos o racismo e o machismo, desenvolvendo ações que sem dúvida são à base da política de diversidade hoje debatida em todo o país.

Através dos congressos da SBPC (Sociedade Brasileira Para o Progresso da Ciência), o MNU denunciou o racismo na Educação, nos meios de comunicação e, no Congresso da Anistia introduzimos a discussão de que os presos comuns também são presos políticos, pois são empurrados para o crime pelas circunstâncias sociais, políticas e econômicas e, denunciamos a tortura nas prisões sobre os chamados presos comuns, base para a criação de uma política de direitos humanos contra a tortura no Brasil.

No início de 80 o MNU – SP garantiu também, pela primeira vez, a fala oficial no Brasil da Organização Para Libertação da Palestina – OLP, através de seu representante Farid Sawan, que atualmente representa os Palestinos no Conselho da SEPPIR – Secretaria Especial de Política da Promoção da Igualdade Racial.

Na década de 80, foi o MNU a organização que realizou as maiores e mais importantes manifestações contra o Apartheid na África do Sul, embora não recebêssemos apoio político ou financeiro da Organização das Nações Unidas – ONU. Criamos comitês nas principais Estados do país e realizamos manifestações com milhares de pessoas, contribuindo significativamente para a luta dos nossos irmãos da África do Sul e do Zimbabwe.

Em 1986, realizamos a Conferência Nacional do Negro em Brasília – DF, de onde saiu à proposta de criminalização do racismo e a Resolução 68 das Disposições Transitórias Constitucionais, sobre a titulação das terras dos remanescentes de quilombos.

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Instituto NegroBrasileiro (Rio de janeiro 1984)


No ano de 1988, no VIII Encontro de Negros do Norte - Nordeste, organizado pelo MNU da região, foi definido questões que balizaram a atual lei l0. 639, que dispõe sobre o ensino da história da África e do negro no Brasil, orientação educacional que permeou a criação, com certeza, do Centro de Educação Unificada – CEU, escola integral com cultura, arte, lazer (cinema, teatro,sala de música e quadras esportivas), bibliotecas, material escolar gratuito, alimentação e assistência médica, no governo Marta Suplicy na cidade de São Paulo.


O Estado, os partidos políticos, movimentos sindicais e populares, tentam separar as conquistas da população negra do movimento negro, carro chefe da nossa luta. O Estado e os partidos políticos buscam dominar e manipular nossa população. Os movimentos por equívocos e por terem o racismo introjetado em suas mentes, ações e concepções.

Na revista "O Negro", em 1992 Margarida Barbosa – enfermeira do Hospital das Clínicas da Unicamp – Universidade de Campinas, militante do MNU, atualmente diretora do Sindicato dos Trabalhadores da Unicamp, escrevia sobre a anemia Falciforme, doença que proporcionalmente atinge mais aos negros, orientando a sociedade e cobrando a quem de direito a exigência de políticas públicas referentes a este tipo de doença, pois além desta anemia, há diabetes, hiper-tensão e outras doenças que proporcionalmente vitimam mais aos negros.

O MNU, fortalecendo a proposta do início da década de 70, do Grupo Palmares de Porto Alegre, decidiu na Assembléia Nacional do MNU, em Salvador – BA, no dia 4 de novembro de l978, transformar o 20 de Novembro, no DIA NACIONAL DA CONSCIÊNCIA NEGRA, data da morte de Zumbi, um dos principais comandantes do Quilombo dos Palmares, um exemplo de luta e dignidade para os negros e todos os brasileiros.

No ano de l988, realizamos importantes manifestações no mês de maio contra a farsa da Abolição, na cidade do Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador e outras.

Em 20 de novembro de l995, realizamos a Marcha do Tricentenário da Imortalidade de Zumbi, a Marcha Zumbi dos Palmares, contra o racismo, pela Igualdade e a Vida, em Brasília – DF, com a participação de mais de 30.000 pessoas.

Em São Paulo, no início de novembro de 95, realizamos uma grande manifestação com mais de oitocentas pessoas no Consulado Americano contra a Pena de Morte e Pela Libertação de Múmia Abu Jamal, antigo dirigente do Partido dos Panteras Negras, preso e condenado à morte injustamente numa farsa reconhecida internacionalmente. Múmia Abu Jamal, como Nelson Mandela é um exemplo para a humanidade, na luta contra o racismo, pela liberdade e a vida, um campeão de direitos humanos. O MNU tem colaborado com campanhas internacionais pela defesa de sua vida e pela sua libertação.

Os remanescentes de quilombos com a participação do MNU realizaram o I Encontro Nacional dos Remanescentes de Quilombos, em novembro de 95, fortalecendo a relação do movimento negro urbano com a área rural, dando uma nova qualidade ao movimento negro do Brasil.

Esta intervenção do MNU junto aos remanescentes de quilombos teve início em 1980, através do MNU-SP no Cafundó, região de Sorocaba, tendo também, o MNU atuado a partir de meados de 80 junto aos Calungas, em Goiás. O MNU-BA no início da década de noventa na região do Rio das Râs. O MNU atua junto a quilombos em Pernambuco, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Paraná e Maranhão.

A partir do final dos anos setenta desenvolvemos o conceito Raça e Classe, desenvolvendo uma teoria política para garantir as ações práticas. Atualmente, há um leque de propostas que estamos propondo aprofundar num Congresso do Negro Brasileiro em novembro de 2006.

Hoje a direita busca golpear com violência à esquerda no Brasil, se aproveitando de erros de concepção desenvolvido por setores oportunistas e aparthistas do campo majoritário do Partido dos Trabalhadores, que se aliaram com forças retrógradas da sociedade brasileira para buscar garantir seus projetos imediatistas, tentando aparelhar o estado brasileiro, como já haviam feito com setores importantes do movimento sindical.

Este mesmo campo político, supostamente de esquerda, tem como prática cooptar quadros dos movimentos, tenta esvaziar os movimentos sociais, isolar setores que lhes são críticos, implantando uma política de subserviência e compadrio.

Estão sendo atacados pelos grandes capitalistas, que são os verdadeiros donos da privatização do estado, como se o PT, estivesse inventando a corrupção na máquina do Estado e no parlamento burguês, majoritariamente composto por verdadeiros bandidos, ladrões inveterados, que usam todos os métodos para garantir a exploração da grande maioria da população.

Não podemos cair no canto da sereia. Temos que novamente cumprir nosso papel de vanguarda da luta da população negra e pobre e, desmascarar esta farsa.





Ao mesmo tempo devemos estabelecer uma nova relação com os setores de esquerda, que em sua maioria tenta nos usar, querendo nos impor de forma colonialista seus programas nascidos e desenvolvidos no coração da Europa.

O conhecimento é universal e, os brancos, que tem sua matriz na Europa, mentem na história. Não existe cultura ou raça superior.

Esta é a nossa principal luta. Construir não apenas um programa partidário, ou de nação, mas construir um novo processo civilizatório.

Dia 22 de novembro, realizaremos a MARCHA ZUMBI + l0 – II MARCHA ZUMBI DOS PALMARES, CONTRA O RACISMO, PELA IGUALDADE E A VIDA, em Brasília – DF.

Setores de direita do movimento negro, composta em sua maioria por ONGs, algumas, inclusive, que se beneficiavam da proximidade com o Governo Lula e, hoje, diante do forte ataque ao governo em questão, já se sentem seguras para anunciar desde já a possível aliança com um suposto novo governo a ser eleito, um governo tucano e, tentam usar a população negra escorados em financiamentos vindos particularmente da Fundação Ford, e se arvoram de movimento negro autônomo e independente e, convocam uma marcha para dia diferente da data convocada pelos movimentos nacionais e outras entidades, com história comprovada na luta do negro.

Em São Paulo, fazem reuniões convocadas pelo Conselho de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra e tem como principal articulador o Secretário da Justiça, Hédio Silva Júnior indicado pelo Partido da Frente Liberal e incluído na equipe de secretário de Geraldo Alckmin num verdadeiro golpe de mestre.

Poeta Solano Trindade
O que temos a dizer a estes grupos e pessoas do movimento negro, a direita do movimento, é que o TIGRE NÃO PRECISA DIZER QUE É TIGRE. Somos independentes pela nossa trajetória, pelas conquistas ao longo da história e por não abrirmos mão de forma alguma dos nossos princípios e, dia 22 de novembro, estaremos mostrando mais uma vez como se combate o racismo e como se caminha para a construção de uma sociedade sem racismo, enfrentando os racistas e juntando todos aqueles que se propõem a construir uma nova sociedade, sem explorador e explorados, sem racismo, machismo e outras formas de dominação.

Revisão ortográfica: Professora Lilian Regina Andrade.

domingo, setembro 25, 2011

AGENTES DE TRÂNSITO TERÃO BOLSA FORMAÇÃO

AGENTES DE TRÂNSITO TERÃO BOLSA FORMAÇÃO



O deputado federal comunista Daniel Almeida, eleito pelo Estado da Bahia, apresentou  o Projeto de Lei nº 7.410/2010, que “Altera o § 9º do art. 8º-E, da Lei nº 11.530, de 24 de outubro de 2007”, para incluir os Agentes de Trânsito entre os beneficiários do programa Bolsa-Formação. O Projeto de Lei pelo ritual legislativo da Câmara dos Deputados, teve a seguinte tramitação em 08 de junho de 2011: a Comissão de Trabalho, de Administração e Serviço Público (CTASP),http://www.camara.gov.br/internet/ordemdodia/ordemDetalheReuniaoCom.asp?codReuniao=25909
aprovou por unanimidade o parecer favorável, do relator da matéria deputado federal Roberto Santiago - (PV-RJ).

Na Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado (CSPCCO), o relator deputado Enio Bacci, apresentou parecer favorável, com substitutivo do deputado Daniel de Almeida que incluiu na propositura inicial os Agentes Penitenciários, submetido à votação da Comissão no próprio dia 17 de agosto de 2011, foi aprovado por unanimidade.
http://www.camara.gov.br/internet/ordemdodia/ordemDetalheReuniaoCom.asp?codReuniao=26578
Faltando a aprovação na Comissão de Finanças e Tributação (CFT), que tem prazo de cinco sessões ordinárias para apreciação da matéria, prazo iniciado em 05 de setembro de 2011.

Pelo Regimento da Câmara dos Deputados Artigo 24, a tramitação do Projeto de Lei é conclusiva, significando, que assim, que todas as comissões tenham aprovado o PL, vai à sanção, a lei não precisa ser submetida ao Plenário da Casa, e os Agentes de Trânsito passarão a ter direito ao PRONACI – Programa Nacional de Segurança Pública, do Ministério da Justiça - Bolsa Formação, cumprindo as exigências do programa, que hoje exige que o salário máximo não possa ultrapassar de R$ 1.700,00 e a Bolsa Formação é de R$ 443,00.


Aparecido Donizetti Hernandez
FONTE: Câmara dos Deputados:

sábado, setembro 17, 2011

A SOMBRA DE UM DITADOR

A sombra de um ditador



A atuação de Getúlio Vargas no cenário político do Brasil é condicionada por fatores tão complexos e contraditórios, em todos os sentidos, que é difícil descrevê-la através de síntese. Ditador num período de profundas crises internacionais e nacionais, Vargas projetava descaradamente as imagens mais diversas e que, muitas vezes, acabavam se desmentindo pela própria contradição de seus atos. Era, sem dúvida, o político oportunista, do qual se tornou perito, capaz de todas as combinações e manobras, à fim de manter-se no poder.

A ambição de poder de Vargas, foi sem dúvida, num primeiro momento, um dado específico, mas havia outros, mais complexos e amplos: o governo de Getúlio iniciou-se sob a depressão mundial, com a crise de 29, que resultou numa convergência de fatores tanto externos quanto internos que acabaram por reforçar seu poder, conduzindo-o, em 1937, à implantação de um regime que abusou mais do que qualquer outro.

Vargas, simpatizante dos regimes fascistas, lembrando que todo fascista que se preze adota ideologias voltadas para o totalitarismo, acabou caindo em contradição (ou seria oportunismo?) ao fazer acordos econômicos com democracias liberais. No entanto, o ditador de posição implacável, que impôs uma autoritária Constituição ao Brasil, cujo modelo inspirava no regime fascista, declarou guerra à Alemanha de Hitler e à Itália de Mussolini, combatendo na Europa o espelho que refletia a sua própria imagem.

Getúlio Vargas, inimigo histórico do comunismo, reprimindo as tentativas revolucionárias e encarcerando líderes. Inimigo histórico de Luiz Carlos Prestes. Um desumano histórico perante a atitude tomada em relação à Olga Benário, pois suas convicções políticas embasadas num regime ditatorial fascista e seu oportunismo foram além de seu lado humano. Entretanto, na fase de liquidação do Estado Novo e em condições extremamente difíceis, aliou-se a Luiz Carlos Prestes, tentando aproveitar-se também da palavra de ordem comunista, achou oportuno a frase: “Constituinte com Getúlio”.



Mais uma vez surge o oportunismo de um ditador; porém, agora aliado à um comunista, pelo qual concedeu anistia política – comunista este que tendo consciência do controle varguista à classe trabalhadora, também se alia ao mesmo, aproveitando o momento favorável às tentativas de mudanças internas e se elege Senador da República, superando nas urnas o próprio Vargas – fato inédito na história política do Brasil. No entanto, Prestes, ainda que Senador, fica com as mãos atadas, percebendo mais tarde que a classe detentora do poder na época, era a classe burguesa – terreno preparado por Vargas, pois ainda que adotando ideologias fascistas de governo, Vargas havia governado segundo os interesses dessa classe (classe burguesa), redimensionando a questão do trabalho e do capitalismo numa ordem capitalista internacional.

A vida partidária renascia, onde a reabertura política caminhou para a democracia. Mas que democracia foi essa controlada por Getúlio? Vargas continuava manipulando à fim de permanecer no poder, criando duas forças partidárias com faces opostas, mas direcionadas ambas à si mesmo: de um lado, o Partido Social Democrata (PSD), era composto de elementos da alta administração estatal e de grandes proprietários e financistas que se beneficiaram com o Estado Novo; de outro o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), com o qual pretendia obter apoio das classes trabalhadoras, que se beneficiaram com as leis trabalhistas. O próprio PTB, criado pelo regime do Estado Novo e idealizado por Getúlio, tinha a finalidade de servir de anteparo entre os trabalhadores e o Partido Comunista, agora na legalidade.



Getúlio era especialista e fazia um jogo político contraditório, tão contraditório que ao mesmo tempo que apoiava formalmente o general Eurico Gaspar Dutra; às escondidas, estimulava um movimento popular que pedia sua permanência no poder: o queremismo – “Queremos Getúlio”.

Identificado com a criação das leis trabalhistas no Brasil e concedendo “vantagens” aos trabalhadores Getúlio passa a ser denominado “pai dos pobres”. Pura verdade histórica, pois realmente Vargas foi o “pai dos pobres”; porém, a mãe dos ricos. No entanto, os fatos demonstram que Getúlio mais absorvia as pressões do que se submetia a elas, revelando não só grande capacidade de sobrevivência política, mas também enorme cuidado em preservar a sua identidade, procurando se equilibrar diante às constantes oscilações das facções da época. Até que ponto Vargas foi sincero nas suas diversas posições, especialmente na defesa dos trabalhadores? O trabalhismo getulista era certamente de inspiração fascista e totalitária: um trabalhismo estatal, estruturado do topo para a base, e que fatalmente levaria, como de fato levou, ao chamado “controle getulista da classe trabalhadora”, onde a utilização dos sindicatos não era em beneficio dos sindicalizados, mas estes serviam como massa de manobra política dos detentores do poder.



Getúlio Vargas não passou de mediador entre trabalhadores e padrões visando seu próprio interesse: manter-se no poder. Ainda que de certa forma iludidos e manipulados, os trabalhadores viam em Vargas um protetor e os empresários uma garantia de ordem pública e estabilidade social e econômica.

O Estado Novo de Vargas foi um desastre nacional; ao mesmo tempo, era evidenciado pelo atraso de um amadurecimento político através do estrangulamento da democracia; também acabou por atingir negativamente não apenas os homens em condições de atuar naquela época, como comprometeu a formação das gerações futuras.

Os abusos de poder de Vargas, pelo qual se erguera, repercutiu em sua própria queda, pois a ambição de poder do ditador encontrava-se enraizada nas tensões internas e na conjuntura internacional. A disciplina do Estado Novo imposta de cima para baixo, através da força, da paralização política, da repressão, da censura, da propaganda maciça resultou-lhe numa ditadura fincada em areias movediças. Se o Império Romano, que era inabalável, caiu, porque haveria de durar o Estado Novo de Vargas para todo o sempre?



Vargas volta ao poder. Seria o caso de pensarmos num novo homem? Ou numa velha estratégia política, porém agora condicionada pelas circunstâncias do período, retomando ligações mais íntimas com as massas urbanas, tendo a consciência de que essa “nova” personagem era imprescindível para um novo acomodamento de poder? Seria o caso de pensarmos que Vargas procurou apagar a imagem de ditador e construir em seu lugar, a figura de um estadista democrata? Seria o caso de pensarmos que realmente estava sendo sincero e que seu objetivo era a construção de uma “verdadeira democracia social e econômica”? Ou era a sua fórmula para impedir a revolução social?

Quem ainda é ingênuo para cair nas graças das atitudes populistas e do sorriso paternal de Vargas?

O político oportunista prefere matar-se a ser deposto em circunstâncias tão humilhantes.



É impossível avaliar Vargas por um critério único. Sendo que a queda do Estado Novo marcou o fim de um período, mas não o término da Era Vargas, onde o populismo varguista retorna triunfalmente em 1950, porém não de forma ditatorial, e mesmo que legitimado pelo voto popular, não deixa de ser manipulado. Seja como for, com a chegada de Getúlio ao poder, começa o Brasil uma nova fase histórica. Getúlio foi assim, um divisor de águas, sendo perfeitamente legítimo falar-se da história nacional antes e depois de Vargas. Apoiando-se sucessivamente nas mais variadas facções, no cenário político e social brasileiro; dividindo para melhor reinar; preferindo atrair os adversários para sua órbita, Vargas permaneceu sempre fiel a si mesmo, sobretudo ao seu instinto de sobrevivência política. “Getúlio deixou um rastro de polêmica e controvérsia sobre sua pessoa. Alguns o amavam freneticamente, outros o odiavam com estupendo rancor. Uns apontavam em Vargas o ditador implacável, o demagogo sem escrúpulos. Outros viam nele o político com sensibilidade social em relação aos trabalhadores, o governante nacionalista.” Impossível mesmo era ficar indiferente diante dessa personagem tão desconcertante.



A sombra de um ditador

Mancha no tempo



Apesar de tudo nunca será Vargas, como Lopes, Francia ou Rosas,
Não tem vértebras, apenas forma humana.
Será o Getúlio, o Gegê, o Rebeco, como o Maneco ou o Quincas.
A História só recolhe os que deram ao nome
a força do ser, positiva ou negativa.
Não foi. Faltou-lhe convicção para ser, coragem para marcar,
caráter para impor,
O gesto que identifica o herói, no altruísmo ou no crime.
Nem soube matar. Houve apenas crimes, nunca heroísmo.
A mulher grávida foi entregue à Gestapo
O idealista pôs sangue pela boca, nove anos sem sol,
O professor de Leningrado pensa que é flor no pátio do presídio,
A mocidade caiu nas praças à traição, os operários levaram de volta
A tuberculose para as crianças;
Outras crianças receberam bandeiras, outros operários receberam cartazes;
O estádio se encheu de coros e acenos comandados,
A professora de História do Brasil foi demitida.
1 bilhão de Cruzeiros para os coros e as bandeiras
E os retratos nas paredes, e a invasão dos sindicatos,
E os cânticos rastejantes. O escritor estrangeiro de 2ª classe
- fabricante de gazuas para a História –
Apresentou a biografia e o vale de 500 mil cruzeiros.
Apesar da prestidigitação, ficará do lado de fora.
Fabricou-se um espelho encantado: “quem é o maior homem do mundo?”
“e o maior estadista? e o nosso chefe? e o guia da nacionalidade?”
“e o salvador nacional? e o financista? e o país dos pobres?”
“e a mãe dos ricos? e o irmão dos médicos? e o cunhado de Hitler?”
“e o filho de Mussolini? e o amigo de Roosevelt? e o irmão de Churchil?”
“e o inigualável, o inefável, o simpático, o formidável?”
“e o rei dos reis? e o rei dos cabritos? e o porco que ri? e o pai de todos?”
“e o espelho respondendo: é ele, é ele, é ele” “Heil”, “Heil”, “Heil!”
Não havia tuberculose, nem impaludismo, nem raquitismo, nem sífilis
Nem crianças mortas, nem fome, nem ditadura,
Exportávamos trigo, fabricávamos aviões, cantávamos Democracia.
Não havia pobreza: produzíamos milionários,
Milionários em massa, processo do Estado Novo.
Brasil! – O locutor ventríloco manda tocar o Hino Nacional,
Depois se envergonha: venha o Guarany de Carlos Gomes.
Nunca será substantivo próprio, ficará adjetivo.
E será o crime, o juiz absolverá: houve ofensa, foi chamado de “getúlio”.
A História dirá um dia: no tempo de Eduardo Gomes
Houve um tiranete. Foi esmagado como um verme
A pisada dos homens livres apagou seu rastro.



J. G. de Araújo Jorge







Lilian R. de Andrade Pós graduada em História. Atualmente leciona no Colégio Estadual Leonardo Francisco Nogueira - EMNT e Escola Estadual Castro Alves - EF
Postado no fórum da comunidade Orkut: Luiz Calos Prestes – Lilian em 03/04/09 -http://www.orkut.com.br/Main#CommMsgs?cmm=120496&tid=5320194745844507404&kw=a+sobra+de+um+ditador

domingo, setembro 11, 2011

POETAS DEL MUNDO - RIO DE JANEIRO

Hoje, 10 de setembro de 2011, na linda cidade de Maricá, região dos lagos do Estado do Rio de Janeiro, foi inaugurado no Centro de Produção Cultural, o “Espaço Mestre Raladinho, situado no centro da cidade, na rua Domício da Gama, 107 - A, que também abrigará a sede Estadual da Associação Internacional Poetas del Mundo, com a prestigiosa presença da Presidente Mundial poetisa Deslanive Daspet juntamente com poetas de vários Estados, onde honrosamente fomos recepcionados pela poetisa Zélia Balbina, Cônsul no Estado do Rio, que na oportunidade fez o lançamento de seu livro “Amor em Pecado”. Parabéns à aguerrida poetisa e Cônsul de Poetas del Mundo do Estado do Rio de Janeiro, Zélia Balbina, e à Maricá, por ter tão ilustre moradora.


 Aparecido Donizetti Hernandez
 Cônsul Poetas Del Mundo – Itapevi/SP



terça-feira, setembro 06, 2011

BIENAL DO RIO DE JANEIRO

Antologia Poetas Del Mundo – Volume 1, participo da obra com duas poesias e estarei nesta sexta-feira dia 09 de Setembro – Bienal do Livro do Rio de Janeiro para o lançamento. Compartilho com todos a minha alegria e honra de estar presente em tão importante livro. Aparecido Donizetti Hernandez Cônsul Poetas del Mundo - Itapevi - SP






Ideais do Poeta Chileno Árias Manzo que afirma em nosso manifesto: ...[...] Assim como deterioramos o planeta constantemente com o uso dos recursos naturais e humanos, assim se constroem armas de destruição em grande escala, capazes de destruir toda a humanidade em poucas horas, e a supremacia do poder se concentra sempre nas mesmas mãos, no que hoje conhecemos com Império(s). Porém, nem tudo é negativo, porque o caos moral, caos ético, o caos político (guerras infames), o caos econômico (coisas absurdas) não são outra coisa senão manifestações do PARTO DA HISTÓRIA, como quando uma mulher dá a luz a uma criança; morre uma etapa e surge outra de seu regaço... [...]...

domingo, setembro 04, 2011

A PREFEITURA COMO ORGANIZADOR COLETIVO

A PREFEITURA COMO ORGANIZADOR COLETIVO




            Estando hoje a prefeitura como o principal organizador coletivo de todas as redes sociais e é isso o que possibilita seu papel de governo protagonista na sociedade.

            A descentralização das decisões é mais do que necessária para que possamos promover o desenvolvimento humano. Na sociedade, o papel central das prefeituras é determinado por sua atuação como organizador por sua atuação como organizador coletivo, pelo seu impacto na melhoria da capacidade de organização e ação de todos os atores e pessoas em um território.

            As prefeituras cabe ir além de suas competências, sejam elas quais forem, para assumir os desafios de suas cidades. Nada que aconteça, ou os seus cidadãos necessitam, é alheio a uma prefeitura que tenha adotado a governança como modo de governar. Sua tarefa não consiste em tentar achar solução para recursos que não tem, nem qualquer administração terá, mas em desenvolver uma ampla ação que implique recursos, geração de uma cultura de ação, organização comunitária colaboração entre instituições e público-privada para dar uma resposta coletiva, no sentido de envolver toda a sociedade para a solução dos seus desafios.
           


           As competências e os recursos nas mãos dos governos locais não são importantes em si mesmos, mas enquanto instrumento para aumentar a capacidade das prefeituras convocarem os processos de responsabilidade dos cidadãos e das parcerias público-privadas.
           
    
         Você, cidadão, acha que a atual gestão (refere-se a São Roque-SP – grifo meu) proporciona uma resposta coletiva aos anseios de nossa sociedade ou atende aos interesses de grupos econômicos poderosos que controlam o poder político e econômico de toda a cidade?


            Queremos ouvir o povo. O PT quer te ouvir.



Elian Bianchi (Chumbinho)
Economista, empresário e
Membro do PT de São Roque-SP.

Publicado no JORNAL DA ESTÂNCIA, agosto de 2011, página 3.
Transcrição e formatação: Aparecido Donizetti Hernandez
" No brasão em latim: MEA PAULISTA GENS" - (Tradução no google: A NAÇÃO DOS MEUS PAULISTAS

sábado, agosto 27, 2011

4º ESNA: "Trabalhadores precisam de agenda contra a crise"




4º ESNA: “Trabalhadores precisam de agenda contra a crise”, defende João Batista Lemos












O segundo dia de trabalho do Encontro Sindical Nossa América (ESNA) foi iniciado a partir de uma exposição do secretário adjunto de Relações Internacionais da CTB, João Batista Lemos. O dirigente, que também é vice-presidente da Federação Sindical Mundial (FSM) e um dos coordenadores do evento continental, afirmou que a classe trabalhadora latino-americana necessita de uma agenda comum, com o propósito de enfrentar a crise econômica do capitalismo.

Batista afirmou que a quarta edição do ESNA já é um evento histórico para o sindicalismo classista na América Latina. No entanto, esse destaque precisa ser traduzido na elaboração de tarefas e desafios para os trabalhadores da região. “Como fortalecer a unidade de ação da classe trabalhadora em nosso continente? Essa é a principal questão deste encontro. Precisamos discutir quais serão nossas principais bandeiras para enfrentar o capitalismo e avançar com a luta pelo socialismo em nosso continente”, afirmou, antes de os delegados se dividirem em três oficinas de debates.

Coube ao dirigente cetebista a coordenação da oficina a respeito da crise econômica do capitalismo e a necessidade de integração regional da classe trabalhadora. Batista afirmou que a crise atual é o desmembramento daquela iniciada em 2008, nos Estados Unidos, e apontou a construção do socialismo, a partir das características de cada país, como solução para o atual cenário. “Não há alternativa intermediária. O problema é estrutural. Antigamente se falava em ‘socialismo ou barbárie’, mas por todo o mundo há sinais claros de situações de barbárie”, alertou.

Cassino mundial

Munido de números, Batista lembrou que a soma dos Produtos Internos Brutos (PIB) de todos os países do mundo é de cerca de US$ 62 trilhões. No entanto, a soma dos valores em circulação, sem qualquer tipo de lastro, já chega a US$ 600 trilhões – “um verdadeiro cassino mundial”, descreveu.

Diante do atual cenário, o dirigente recordou que o mercado financeiro e os governos conservadores têm levado a classe trabalhadora mundial a bancar a conta da atual crise. “Na Europa vemos o desmantelamento do Estado de bem-estar social. Vemos também os trabalhadores com cada vez mais seus direitos reduzidos, por meio de ajustes fiscais”, relatou, antes de lembrar que tais medidas chegaram a receber o respaldo da Confederação Sindical Internacional (CSI).

“O que temos visto é a concentração acentuada do capital, com a exclusão dos trabalhadores”, afirmou Batista, para em seguida destacar, com preocupação, o atual cenário político na Europa: “A direita ganha força a cada eleição, com o respaldo dos movimentos xenófobos e neofascistas. Quando não há perspectiva para a luta, abrem-se espaços para esse tipo de forças”.

América Latina: cenário distinto

Batista entende que está na relação Sul-Sul – da qual os países da América Latina são atores fundamentais – o caminho a ser seguido pelos trabalhadores. “A integração que vem sendo construída pelos governos progressistas da região, a partir das vitórias democráticas, deve servir de exemplo para os antiimperialistas de todo o mundo”, disse.

Diante desse cenário, Batista entende que a classe trabalhadora da América Latina precisa estar na linha de frente dessa luta. Nesse sentido, o papel do 4º ESNA é estratégico, segundo o dirigente, que propôs a criação de uma agenda comum, constituída por três respostas para a crise, elaboradas pelos trabalhadores e trabalhadoras do continente:

1- Avançar na luta pelas transformações sociais, a partir da unidade e do protagonismo político da classe trabalhadora. “No Brasil, esse processo passa pela construção de um novo projeto nacional de desenvolvimento”, lembrou.
2- Integração como estratégia para novas conquistas, num processo baseada em uma plataforma do trabalho. “Iniciativas como a Alba, a Unasul e a Celac se tornaram uma necessidade objetiva”, sustentou.
3- Internacionalização da luta. “A classe trabalhadora é mundial e não pode ficar isolada em cada país. É preciso estar ao lado dos afircanos, dos europeus e dos povos de todo o mundo em suas lutas”, finalizou.

Fernando Damasceno – Portal CTB

sexta-feira, agosto 26, 2011

GOVERNO QUER PUNIR OPERADORAS QUE RESTRINGEM ACESSO À INTERNET

Governo quer punir operadoras que restringem acesso à internet





Operadoras de telefone e provedores de conexão que restringem o acesso de usuários a alguns dados e serviços da internet vão ser punidos. O governo decidiu aplicar sanções definidas pela "neutralidade da rede", presente no Marco Civil da Internet, enviado nesta quinta-feira, 25, ao Congresso.

Segundo o governo, a prática já é comum no mercado. Uma exemplo do caso é quando a conexão a velocidade da conexão é diminuída por causa de um alto índice de download de vídeos, outros conteúdos e utilização do Skype.

Consta no projeto de lei que o "responsável pela transmissão, comutação ou roteamento tem o dever de tratar de forma isonômica quaisquer pacotes de dados, sem distinção por conteúdo, origem e destino".

As fiscalizações e punições serão regulamentadas depois, por decreto presidencial ou por norma da Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações).

O Ministério da Justiça ainda incluiu no marco que sites, blogs, e-mails e outros "provedores de aplicações da internet" tem de armazenar por até 60 dias registros de acesso de usuários quando houver solicitação de autoridades de investigação.

E não para por aí. Para ficar mais fácil de chegar ao usuário, provedores vão ter de guardar por um período mínimo de um ano os registros de conexão de um usuário à internet, incluindo data, início e término de conexão, além do número de IP.

Nos dois anos de discussão do projeto, companhias têm reclamado da medida. Segundo a Folha, o Planalto prevê que empresas não vão ficar muitos satisfeitas no Congresso e lutarão para derrubar a "neutralidade da rede".

De acordo com críticos, o Estado deve se manter longe da questão e deixar o assunto para leis de direito do consumidor e a livre concorrência. Já para o Planalto, o governo está sendo inovador. Nos EUA, a neutralidade da internet também está sendo discutida.

Com informações da Folha de São Paulo

Coletada do link:
http://www.administradores.com.br/informe-se/tecnologia/governo-quer-punir-operadoras-que-restringem-acesso-a-internet/47468/

segunda-feira, agosto 15, 2011

O POLIGROTA






De: "Hilma Ranauro"
Assunto: "O Poligrota
"







"O POLIGROTA"


(Nhô Bentico)
Itapetininga - SP











É verdade matemática
que ninguém pódi negá,
que essa história de gramática
só serve pra atrapaiá.
Inda vem língua estrangêra
ajudá a compricá.
Mió nóis cabá cum isso
pra todos podê falá.

Na Ingraterra ouví dizê
que um pé de sapato é xu.
Desde logo já se vê,
dois pé deve sê xuxu.
Xuxu pra nóis é um legume
que cresce sorto no mato.
Os ingrêis lá que se arrume,
mas nóis num come sapato.

Na Itália dizem até,
eu não sei por que razão,
que como mantêga é burro,
se passa burro no pão.
Desse jeito pra mim chega,
sarve a vida no sertão,
onde mantêga é mantêga,
burro é burro e pão é pão.

Na Argentina, veja ocêis,
um saco é um paletó.
Se o gringo toma chuva
tem que pô o saco no sór.
E se acaso o dito encóie,
a muié diz o pió:
''Teu saco ficô piqueno,
vê se arranja ôtro maió!'

Na América corpo é bódi.
Veja que bódi vai dá.
Conheci uma americana
doida pro bódi emprestá.
Fiquei meio atrapaiado
e disse pra me escapá:
Ói, moça, eu não sou cabra,
chega seu bódi pra lá!

Na Alemanha tudo é bundes.
Bundesliga, bundesbão.
Muita bundes só confunde,
disnorteia o coração.
Alemão qué inventá
o que Deus criou primêro.
É pecado espaiá
o que tem lugar certêro.

No Chile cueca é dança
de balançá e rodá.
Lá se dança e baila cueca
inté a noite acabá.
Mas se um dia um chileno
vié pro Brasir dançá,
que tente mostrá a cueca
pra vê onde vai pará.

Uma gravata isquisita
um certo francês me deu.
Perguntei, onde se bota?
E o danado respondeu.
Eu sou home confirmado,
acho que num entendeu,
Seu francês mar educado,
bota a gravata no seu!

Pra terminar eu confirmo,
tem que se tê posição.
Ô nóis fala a nossa língua,
ô num fala nada não.
O que num pode é um povo
fazê papér de idiota,
dizendo tudo que é novo
só pra falá poligrota.

* * * * *


EX-CENSOR RELATA COMO FUNCIONAVAM OS VETOS A ARTISTAS DURANTE A DITADURA

Ex-censor relata como funcionavam os vetos a artistas durante a ditadura
12/08/2011





O site oficial de Chico Buarque de Hollanda publicou nesta semana uma entrevista inusitada: Carlos Lúcio Menezes, 69 anos, aposentou-se como censor em 1981. Casado, dois filhos, cinco netos, formou-se em Jornalismo, Relações Públicas e Pedagogia. Fez curso de extensão universitária em Cinema, na Universidade Católica de Minas Gerais e iniciou, mas não concluiu, o curso de Direito. Trabalhou na Assessoria de Imprensa dos presidentes da República Médici e Geisel.

Depois de ser entrevistado, Lúcio deu o seguinte depoimento:

“Esse trabalho que vocês estão fazendo é muito importante para que nossos filhos e também nossos netos, no futuro, possam conhecer a obra de um artista brilhante, de garra, e com muita personalidade.”

Leia abaixo:

Antes de ser censor o que você fazia?
Eu era jornalista e radialista.

Em qual jornal você trabalhava?
No Rio de Janeiro, eu trabalhei no Jornal do Brasil. Depois fui para o Diário da Noite e Jornal. Também, trabalhei com a Rádio Tupi, do Rio.

E você cobria que área?
Geral, social e reportagens do dia-a-dia.

E como você resolveu entrar para a censura? Existia um concurso?
Aqui em Brasília, quando eu cheguei em 1960, fui trabalhar no Correio Brasiliense e na Rádio Nacional. Fazia cobertura dos ministérios, Câmara dos Deputados, praticamente tudo, porque eram poucos os jornalistas e as atividades de Brasília ainda estavam começando. Também trabalhei na Gazeta de São Paulo, da Fundação Cásper Líbero, na área de reportagens gerais, fazendo a cobertura, inclusive, do Congresso e da Câmara. E nesses contatos que eu mantive fui convidado para ter acesso à censura. Em Aracaju, trabalhei na Rádio Liberdade, onde eu fazia um programa de crítica de cinema. Eu via, examinava os filmes para fazer comentários para o público. Sempre gostei muito de cinema e gostei muito de teatro também. Inclusive, conheci a minha mulher em um teatro. Começamos a namorar fazendo teatro amador. Nos ensaios surgiu o namoro…

Você lembra o nome da peça?
Lembro. Os transviados, de Amarel Gurgel, também chamada A Trágica noite de natal. Inclusive, quando nós fomos levar os convites para o governador, o secretário perguntou como era o nome da peça. Nós éramos três. Eu, o diretor artístico e o responsável pelo elenco. Três para levar o convite, uma comissão. De modo que naquela época eu já tinha uma ligação com a parte artística. Trabalhei em rádio fazendo também rádio-novela, que naquela época era rádio-teatro, uma coisa muito incipiente na minha terra e….

Você disse que foi convidado a integrar a censura. Isso me leva a crer que não havia, então, concurso. Ou havia um concurso?
Na época não havia concurso. A capital estava transferindo-se do Rio para Brasília.

Desde que ano a censura prévia existiu, de maneira institucionalizada? Não vamos falar do velho DIP. Vamos falar do pós-revolução.
Isso que eu ia dizer… Primeiro, ela surgiu com o DIP – Departamento de Imprensa e Propaganda – em 1929, 1930, com a chegada do Getúlio. Quando ele saiu e entrou a República, a democracia, então terminou a censura política dos jornais, pois naquela época não existia ainda a televisão, rádio era uma coisa muito difícil, mas tinha muitos espetáculos de teatro. Cinema também já estava surgindo com muita força. Aí criaram um serviço de censura de diversões públicas. Não era censura política. Era censura de diversões públicas.

Isso foi em que ano, Lúcio?
Em 1945. Em 44, 45, quando terminou o período do Estado Novo e aí surgiu o Serviço de Censura de Diversões Públicas, a missão era apenas classificar os espetáculos e, naturalmente, proibir algumas coisas que transgredissem uma legislação existente na época. Depois foi aperfeiçoada.

A censura prévia, em que era obrigatório todo mundo mandar todos os textos antes, após a revolução de 64, foi institucionalizada quando?
Bom, depois que nós fomos convidados (no grupo, tinha outros jornalistas, tinha até psicólogos, professores, pedagogos), fomos submetidos a um curso intensivo na Academia Nacional de Polícia, para podermos verificar a legislação e nos prepararmos para exercer a censura. Quer dizer, não éramos censores. Então, fomos convidados para exercer esse cargo, nos deram a legislação vigente e, em seguida, nos colocaram na Academia de Polícia para fazermos cursos. Aí foram vários cursos sucessivos. Durante o período que eu estive lá, sempre tinha cursos de reciclagem. A institucionalização veio, praticamente, nesta época da criação da censura aqui em Brasília. Fizemos uma coletânea da legislação e verificamos que havia necessidade de uma institucionalização para que ela pudesse ter o amparo da Constituição. Aí foi feita a lei, tranqüila…

Em que ano foi isso, Lúcio?
Isso aí já foi em 1960, aqui em Brasília. Aí nós começamos a trabalhar com base nessa legislação.

Mas ainda não havia uma obrigatoriedade de se mandar tudo para o Serviço de Censura?
Não, não.

Eu pergunto, este fato, quando é que ele começou a acontecer?
Daí em diante, na hora em que a censura foi criada, institucionalizada…

Em 60?
60. Aí é que começaram a vir para cá as peças de teatro para o exame do texto. Primeiro se examinava o texto. Depois de aprovado o texto, a peça era liberada com a classificação que a censura arbitrava e, em seguida, quando o elenco preparava o espetáculo, chamava a censura para verificar o ensaio geral. Este ensaio geral é que dava, praticamente, a liberação plena do espetáculo.

Quer dizer que isso ocorria mesmo antes de 1964?
Ah! Muito antes. Muito antes já existia isso. Já existia censura.

E você ficou na censura até que ano? Me parece que você se aposentou na censura.
Eu me aposentei na censura em 1981. Fiquei desde 1960 até 1981.

Ainda hoje existe alguém que tenha esse cargo de censor, se é que ele existe e que esteja no Governo Federal?
Com relação ao cargo de censor, ele foi extinto com a nova constituição, em 1988. E daí para cá o cargo ficou praticamente inexistente. Os censores que estavam nele foram convidados a fazer cursos de adaptação para outras carreiras dentro da repartição, pois não poderiam ficar sem fazer nada. Então, quem tinha curso de Direito foi fazer curso para delegado. Os que tinham curso de Relações Públicas, Pedagogia, Psicologia e outros cursos congêneres, foram levados para fazer o curso de perito criminal. Não existe mais o cargo de censor.

Volto a perguntar. Em um determinado momento você foi convidado a integrar o serviço de censura. E depois você participou até da reformulação da lei da censura, pelo que eu entendi, no sentido de tentar institucionalizá-la, etc. Existia, depois dessa época, algum requisito para pessoa ser censor? Veio a existir concurso para censor?
Primeiro, passou-se a exigir o curso superior, de nível universitário.

Então deixa eu fazer mais um parênteses. O Augusto, que foi zagueiro na copa de 50…
Exatamente. No dia em que o Brasil perdeu…

Ele tinha curso superior? Porque ele era censor…
Eu não sei, porque quando eu entrei na censura o Augusto já trabalhava no departamento, era secretário e controlava todo o expediente, todo o material, todo o trâmite processual das peças, dos filmes…

Você sabe que num show com a Bethânia, acho que quando a letra de uma música do Chico chamada “Tanto mar” foi proibida, o Augusto é que foi proibir. Aí, dizem que o Chico falou: Porra, além de você perder a copa de 50, ainda vem me aporrinhar…
Eu não sei se Augusto tinha curso superior. O que eu sei é que ele tinha muita vivência, muita experiência na censura, porque foi um dos elementos que participou da sua criação aqui em Brasília. Mas eu não sei o nível cultural dele. Nunca me preocupei em saber disso. Hoje em dia, é relativamente comum um jogador de futebol ter nível superior. O cara vai e faz Educação Física, faz alguma coisa… Eu também não sei… Vou tentar descobrir. O próprio Augusto poderá lhe dizer.

Um censor – se tinha ou não esse nome não importa – depois que o cargo foi institucionalizado, ganhava bem? Dá para você lembrar mais ou menos, comparando com a média salarial?
No início, ele era um funcionário praticamente como qualquer outro. Não tinha vantagem, não tinha regalia nenhuma. Era um funcionário do mesmo padrão de qualquer outro…
A não ser a regalia dos Avant première… de poder ver os espetáculos em primeira mão.
(risos) Ah! Aí era uma coisa que a pessoa ia trabalhar. Ia mesmo.

Depois desse trabalho de institucionalização existia realmente um manual com regras muito claras, do tipo, “isso pode, aquilo não pode; a palavra tal pode, palavra tal não pode: pode-se citar fulano, não se pode citar fulano”. Eu volto a insistir, a gente está falando mais do período pós 66, que é o período que a gente abrange no site do Chico.
O que existe é uma regulamentação básica. Agora, eu te pergunto: Você gosta de feijoada?
Eu gosto. Muito.

Qual tipo de feijoada? Baiana ou carioca?
Aí você me apertou…

É uma feijoada só. Agora a feijoada nordestina, de minha terra, por exemplo, é feita colocando dentro todos os ingredientes, maxixe, quiabo…
É como em Santa Catarina. Em Santa Catarina é assim também.

Já no Rio, não. O Rio cozinha o charque, a carne de sol, cozinha essas verduras fora do feijão. Não mistura. Quer dizer, é uma feijoada só. Isso depende muito do critério de cada pessoa.
Existe a norma básica: Isso aqui é feijoada. Na hora da interpretação a pessoa tem que usar o bom senso e procurar ver se isso se enquadra dentro daquela regulamentação. Pra isso nós fazíamos cursos de reciclagem permanentes. E não era um só censor que examinava. Uma peça, um filme, passava geralmente por uma equipe, normalmente de três censores.

Eu vou dar um exemplo com uma música do Chico. Lá pelas tantas a personagem fala “me agarrei nos teu cabelos, nos teus pêlos”. Num determinado momento a palavra pêlo foi proibida.
Não me lembro disso.

A música se chama “Atrás da porta”.
É. Não me lembro disso.

Isso aconteceu em 72 ou coisa que o valha. Existiam algumas outras palavras como pentelho, isso foi proibido. Proibições desse tipo eram da alçada do censor. Não estavam em regra básica?
Especificamente essas palavras não existiam na regulamentação porque senão teríamos que fazer um dicionário, não é? É aquilo que eu disse. Vai do bom senso e do regionalismo. Se você chegar em Fortaleza e chamar um camarada de baitola, aí você apanha na rua. Aqui, não faz sentido nenhum. Mas baitola no Ceará é um xingamento muito pesado. Então isso vai da interpretação e do regionalismo. O Brasil é grande demais. O regionalismo, naquela época, era muito atuante. Hoje não. Hoje, o Brasil, praticamente, com os meios de comunicação já globalizados e com uma dinâmica muito grande, já se nivelou. Antigamente, uma menina, uma mocinha do interior lá de Minas, lá do Piauí, lá do Mato Grosso, não tinha a mesma vivência que uma carioca ou que uma paulista. Então, muitas vezes, ela se chocava com uma coisa que para a carioca e para a paulista era a coisa mais normal do mundo. Aí é que está: o maior problema da censura era a diversificação terrível que existia na cultura brasileira. Hoje, praticamente, tudo está igual. A novela aí transmitindo para o Brasil todo, modificou o comportamento cultural.

Um dos episódios mais marcantes da censura em relação a obra teatral do Chico Buarque foi o caso da peça Calabar. Você tem alguma notícia disso? Participou? Soube? Saber, seguramente você soube disso, não é?
Eu apenas ouvi comentários, mas não fui acionado para examinar, ou participar, ou dar algum palpite ou parecer sobre o Calabar. Parece que no Calabar, houve um desrespeito, segundo se lê nas diversas entrevistas sobre isso, um desrespeito às próprias regras da censura. Porque a peça passou por todos os rituais da censura, ou seja: manda o texto, discute, tira ali, corta aqui etc. A peça estava pronta para ser encenada e a censura não compareceu ao espetáculo destinado à apreciação…

Existia alguma espécie de marcação homem a homem? Por exemplo: fulano de tal marca o Caetano Veloso, ou se especializa nas letras de Caetano Veloso; fulano de tal se especializa nas letras do Chico Buarque, ou coisa que o valha?
(ri muito) Isso é uma coisa folclórica porque é impossível fazer um negócio desses. Só quem não conheceu o volume de letras musicais, o volume de peças teatrais, o volume de filmes! Naquela época, inclusive, tinha aqueles jornais cinematográficos semanais. Porque o filme, pelo menos, tem maior durabilidade de projeção. Os jornais cinematográficos eram semanais. Só quem não conhece o volume de trabalho é que pode imaginar uma coisa dessas.

Então, fazendo um gancho com volume de trabalho, o Chico deu uma entrevista para o Jô Soares, falando exatamente do volume de trabalho. Ele disse mais ou menos o seguinte: “O negócio tava meio feio e eu imaginava aqueles censores entupidos de trabalho, com a mesa cheia de coisas e eu já era um cara meio marcado. Então, se eu inventar um outro nome, as coisas passam.” Foi aí que ele inventou o tal do Julinho da Adelaide. Então, o pressuposto de Chico estava certo? Volume de trabalho tinha.
Volume de trabalho tinha, realmente. Isso é inegável. Nós nos desdobrávamos e trabalhávamos muitas vezes sábado, domingo, feriado. Levávamos o material para casa para examinar. Enquanto todo mundo estava no clube ou na praia, nós estávamos lendo os textos, lendo as letras musicais para não deixar a coisa acumular. Porque na hora que um compositor, um artista, um autor, apresenta um material para censura, a nossa recomendação sempre foi, desde o início, agilizar ao máximo a sua liberação, ou a sua interdição, se fosse o caso, para que o autor pudesse tomar conhecimento o mais rápido possível. Nós julgávamos muito importante a liberação imediata do material que chegasse em nossas mãos. Cansei de trabalhar sábados, domingos e feriados. Minha família se divertindo e eu em casa trancado, trabalhando. Aliás, todos os nossos colegas.

O episódio do Julinho da Adelaide ficou muito famoso. O Chico inventou aquele heterônimo, chegou até a dar entrevistas, e esse heterônimo teve três músicas aprovadas pela censura. Tempos depois, em 75, a coisa foi desmascarada e todo mundo sabia que era o Chico Buarque. Alguém deve “ter pago o mico” por conta disso dentro da censura. Ou não?
Não sei. Nunca tinha ouvido falar.

Esse Julinho da Adelaide fez três músicas. E era o Chico Buarque. E com isso ele conseguiu driblar, segundo ele, a censura. Lúcio, se alguém pergunta a qualquer pessoa se gosta do seu trabalho, a pessoa diz que tem hora que sim, tem hora que não. Tem prazer, tem desprazer. Quais teriam sido os seus prazeres e os seus desprazeres nessa função de censor?
Eu tenho a creditar muitos mais prazeres do que desprazeres.

Você pode exemplificar?
A alegria. Eu trabalhava realmente com muito gosto. Me dedicava a fundo procurando desempenhar a minha função com o máximo de responsabilidade e procurando sempre humanizar aquilo que estava fazendo. Na hora em que me era dada uma missão para examinar ou censurar um espetáculo de televisão ou de rádio, ou peça teatral, ou letra musical, eu procurava ver naquilo apenas uma obra de arte. E não procurava… “bom eu vou ver isso aqui, se tem alguma coisa que eu possa cortar”. Não! Eu não examinava assim. Procurava ver o que tinha de bonito ali dentro do trabalho. Então, eu sempre tive muito mais prazer no meu trabalho do que desprazer.

E o desprazer? Tem algum de que você se lembre especificamente? Você me contou, ontem, um episódio interessante, que eu gostaria que você repetisse e que é a história que aconteceu em Brasília.
Por uma imposição da lei, a censura se via obrigada a dar toda cobertura não só à ECAD como à SBAT, SBACEM, a uma porção de siglas que existiam…

As sociedades arrecadadoras de direitos, não é?
Arrecadadoras dos direitos autorais. Eu reconheço a importância de uma entidade que possa fazer essa arrecadação para os artistas, para os compositores. Porque, afinal de contas, eles sobrevivem graças a essa arrecadação. Mas, às vezes, havia algumas divergências entre o meu modo de agir e o modo dessas sociedades. Porque eu não aceitava, por exemplo, que qualquer uma delas, fosse cobrar do Wagner, que ia apresentar lá um espetáculo, chegasse no local e dissesse: “Ah! É música mecânica? É. Muito bem, então a taxa vai ser 1, Ah! Não vai ser música mecânica, vai ter um camarada cantando. Bom, então nesse caso é música ao vivo. Então a taxa é 2. Ah! Mas ali, naquela prateleira, tem garrafa com bebida estrangeira. Então a taxa é 3.” Eu não podia admitir essa diversificação. Porque a música, para mim, ia ser apresentada e valia aquilo que… A sociedade arrecadadora deveria ter uma taxa única, no meu entender, para poder facilitar o trabalho de todo mundo. Do empresário, que fosse montar o espetáculo, do artista, que fosse cantar, e da censura, que fosse dar a cobertura à entidade arrecadadora. E essas taxas variáveis é que me davam alguma preocupação. Muitas vezes, eu tive bons relacionamentos com estas sociedades, mas tive muitas divergências na hora da cobrança de algumas taxas.

E esse episódio de Brasília? Como é que foi? Eles queriam cobrar do Chico para ele poder cantar as próprias músicas. Queriam que o espetáculo fosse censurado, é isso?
O Chico veio apresentar aqui um show na boate do Brasília Palace Hotel, que por sinal não existe mais, pegou fogo. E foi uma coisa louca, todo mundo interessado nesse show. E o empresário levou a programação lá para a censura para fazer a liberação:

- “O Chico vai cantar essas músicas que são da autoria dele.”

Muito bem. A entidade foi e arbitrou uma taxa. Mas depois ele quis aumentar a taxa. Eu disse:

Não! Espera aí. Vamos com calma. O rapaz vai cantar as músicas dele. E ele vai pagar para cantar as músicas dele? Se vocês não interditarem, eu vou tomar outras providências. Vou representar contra (e nessa ocasião, eu estava como chefe da censura em Brasília). Eu vou representar contra a chefia da censura, que não deu cobertura. Muito bem. Mas eu vou liberar o espetáculo. E liberei. Assumi a responsabilidade. O Chico nem sabe disso.

Mas vai saber.
Assumi a responsabilidade e como a sociedade arrecadadora disse que iria tomar outras providências, eu fiquei com receio deles chegarem lá e quererem criar problemas com os músicos e empastelar o espetáculo do Chico. Aí eu peguei minha equipe e disse: “Vamos para lá e vamos ficar somente observando para que nada prejudique o espetáculo do Chico”. Aí nós fomos e ficamos espalhados em volta do recinto observando se iria haver alguma coisa que pudesse prejudicar o brilho do espetáculo. E graças a Deus, graças ao bom Deus, o pessoal cooperou. Viu que eu estava pelo menos com alguma razão, e não apareceu, não criou dificuldades. Porque eu sugeri a eles: “Vamos fazer o seguinte: Vocês mandam para lá um representante e todas as músicas que o Chico cantar, vocês anotam. Se ele cantar alguma que não seja dele, aí então vocês depois entram com uma petição na censura, que ela vai providenciar a cobrança dessas músicas junto ao seu empresário.” Graças a Deus tudo correu bem. O Chico cantou. Eu nem estive com ele. Não tive a oportunidade de estar, mas gostaria de ter estado com ele. Não queria que ele soubesse do que estava acontecendo. Queria que ele ficasse tranqüilo, porque o artista nessa hora precisa estar relaxado para se apresentar e não saber que existe a perspectiva de problema, pois aí ele entra preocupado para o espetáculo. Eu não queria dar preocupação nenhuma.

Como é que você via, naquela época, e como é que você vê hoje a obra do Chico? Tem alguma música do Chico de que você goste e que você, de vez em quando, se surpreende assobiando por exemplo?
Tem várias. Tem Carolina, tem A banda e outras que agora não me ocorrem. Mas eu gosto muito. Tem algumas que eu não gosto.

Por exemplo….
Ele como cantor, a mim não me agrada muito não. Agora como artista, como compositor, pela sua inteligência, pela suas imagens literárias nas músicas, eu gosto.

Fala uma de que você não gosta. Você foi muito enfático quando falou “tem algumas que eu não gosto”. Então, essa você deve saber exemplificar…
Geni.

Geni?
Inclusive, eu fiz o possível para liberá-la. O pessoal tava lá na dúvida eu disse: “Não! Vamos liberar essa música. Vamos liberar”. Depois o próprio Chico pediu para tirar, não foi?
(O Chico diz que isso nunca lhe passou pela cabeça. Nota do editor)

(com cara de bobo, perplexo) Eu não sei. Posso até tentar descobrir… Mas onde que pegava a Geni? Era na palavra “bosta” ou no fato de ser uma narração de um homossexual?
“Bosta na Geni”… Porque eu achava uma palavra muito grosseira para o tipo do Chico. O Chico não era desse tipo. Não, esse camarada, nessa hora não estava bem, não estava tranqüilo. Ele devia estar meio agitado, meio preocupado, meio zangado com alguma coisa para fazer isso. Inclusive, têm muitas senhoras Geni pelo mundo que podem se sentir magoadas com isso. E não deu outra.

Deve ter causado um belo rebuliço.
“Vamos liberar com essa palavra, mas vamos mesmo. É uma palavra assim inconveniente, não é palavrão, não é pornografia, não é nada. É uma palavra apenas deslocada de um texto artístico do nível de Chico Buarque. Mas já que ele colocou, vamos liberar. Eu achava que haveria uma reação do povo contra a censura.” E, de fato, houve. A censura foi muito criticada por ter liberado essa música.

A censura recebia muitas cartas de gente pedindo para censurar isso ou aquilo?
Muitas, muitas. Cartas, telefonemas, pedidos. Mas isso aí não chegava nem aos censores. A própria chefia procurava desviar, para não criar um clima de apreensão com o volume de cartas e reclamações.

A pessoa que nos aproximou, que foi o Zé Carlos, me disse que você gostava muito do Glauber Rocha e, agora entre aspas, “pena que ele era subversivo”.
Pena que ele era subversivo, não. O problema do Glauber Rocha é que ele era um excelente cineasta, era um camarada que tinha um desempenho muito bom, tinha uma carreira brilhante pela frente. Só que as idéias dele, quando chegavam a ser expostas, se confrontavam com a minha missão. Não era porque ele fosse subversivo. É que se confrontava. Eu tinha uma missão a cumprir, uma missão do governo. Uma missão que estava estabelecida por normas e por diretrizes governamentais. O problema é esse. Quando a gente ia ver alguma coisa do Glauber Rocha, tinha que examinar onde ele queria chegar. É como se você fosse do Flamengo e eu fosse do Botafogo e nós fôssemos jogar. Eu gosto do jogador Wagner, como tem muitos times que são adversários em campo, mas os próprios jogadores são amigos. Na hora de fazer gol, eles têm que fazer o gol mesmo. Contra o adversário, contra o amigo. Então, eu gostava do Glauber Rocha com a capacidade maravilhosa da sua cinematografia, mas, muitas vezes, eu tinha que desempenhar o meu papel: fazer o gol.

Voltando um pouco à questão da censura de palavras, ao caso do “joga bosta na Geni”… Hoje, a coisa tá muito mais liberada. Você vê esses conjuntos todos aí, com um gestual muito mais insinuante, com palavras muito mais fortes etc. A minha pergunta é a seguinte: Qual é sua opinião? Deveria haver censura prévia hoje? Não deveria? A coisa tá muito liberal? Não tá? O tempo mudou e tem que ser assim? Como é que você vê isso hoje?
Acho que deveria continuar a censura de diversões públicas, sem o aspecto político de censura a jornais, revistas, sem a censura política a imprensa.

Alguns episódios relacionados ao Chico, como invasão de teatro, eram coisa de grupos paramilitares. Óbvio que isso não tinha á nada a ver com o serviço de censura…
Invasão de teatro?

Invasão de teatro. Roda viva, aqui em São Paulo. O grupo paramilitar CCC invadiu o teatro, espancou atores etc. Isso, com o espetáculo liberado, pois o espetáculo só podia estar sendo encenado, se estivesse liberado. Sobre o episódio de Roda viva, você tem alguma informação?
Não, não. Desconhecia esse detalhe.

Não só aqui em São Paulo. No Rio Grande do Sul, o espetáculo estreou e não teve a segunda apresentação porque seqüestraram até atores.
Mas não foi a censura, foi?

Não… Obviamente… eu acredito que não. Eram grupos paramilitares mais ou menos comuns na época, o chamado CCC.
Não… Isso foge totalmente ao meu conhecimento. Eu desconheço plenamente isso aí.









FONTE: http://www.vermelho.org.br/